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October 27 Fragmentos
Ó tímidas meretrizes!... Ó cascas de mangas pecas!... De que adianta o brilho inusitado dos folkways amazônicos se seu povo convive com a fome, deixando marcas de sangue em farpadas cercas estrangeiras? (Fragmentos, extraídos de Poesia vencedora do Prêmio AP de Literatura 2006) Prosa PoéticaEM ALGUM LUGAR DA MEMÓRIA (Para alguém especial: A alma vive, o corpo não mais) “Há horas em que o corpo cala, mas a alma fala...”
I Persistem as lembranças na memória E as vertigens do primeiro olhar perduram mais tempo Quando se movem muitos pingos de lágrimas E quando os negrumes da vida e as branquezas da morte, Comprimindo-se umas às outras, Começam a se derramar e escoar de todos os lados Da alma, fumegante, toda cumplicidade da dor. Há também lembranças de papeis retorcidos, teatros; Cinemas e bibliotecas Onde víamos e líamos inocentemente “O pequeno Príncipe” Tendo como únicos compartes as nossas bucólicas ingenuidades. Há também lembranças de abraços, lapsos de gostar, Do violento desejo de gostar Quando em branca dor as nuvens da puberdade E as névoas do primeiro gozo se rarefaziam de ciúme no céu. Sim. É desta maneira que os relâmpagos de ontem Tingiram os lugares da memória de mim Com a luz ligeira da saudade de alguém E que refulgiram a tempestade do amor primeiro Com seu tremulo raio gozoso. Sim. submeto-me às lembranças desse alguém. Guardo-as mais do que nunca no cofre do coração. São lembranças das mãos sempre atadas, Das mãos gélidas e quase sempre suadas, Da fina inocência silenciosa desdizendo da fala, Do espanto inocente da primeira gala, Das lembranças vivas do namoro vesperal sob o banco da sala, Das lembranças viúvas dos ardentes beijos, Do primeiro sexo luzido e não copulado, Quando o vento suavemente as dispersava e dissolvia, Destruindo os germes que produziam o clarão do medo; Era então que o nascer do primeiro gostar Brilhava sem tremendo pavor, E sem ruído, nem calafrio algum eu sentia. Desse alguém, hoje, portanto Restam lembranças... Apenas lembranças; Porquanto a alma vive, O corpo não mais... II Também sucede freqüentemente sobre a memória Que uma bela nuvem de lembrança Lança-se sobre o mar de saudade como um rio de calma Que se jogasse do firmamento e caindo sobre as ondas, Toda cheia de trevas carrega consigo uma sombria Tempestade grávida de raios e de furacões, E vem ela própria tão cheia de ventos e de fogos Que também na terra se sente o seu horror E todos procuram um abrigo. Muitas vezes persistem também as lembranças das melodias E com rápida canção dominam-nos Nossas próprias paixões. Todavia nenhuma lembrança – nem do ânimo da saudade raivosa Nem desprezível flecha mortal pode ser semelhante Ao ímpeto de um gostar primeiro, Abafado pelo olhar de desprezo; Menos impetuoso é o sombrio desamor quando arrasta consigo A lembrança de alguém: menos grave é o cais de arrimo Quando desvia o mar, ou o gelo quando se liquefaz Em córregos ao dissolver-se das nevascas, Sob o sol já queimante, no meio do verão. Abençoada é a lembrança que estimula a saudade: Não se inquieta de ser lembrada nem agüenta Ser travada, não tem o temor da morte, Quer prontamente atira-se sobre o peito. III Persistem, portanto as lágrimas no coração... E as lembranças desse alguém especial Persiste mais tempo Quando se mexem milhares de gotas de saudades E quando os manjares do amor e as pradarias do ódio, Achatando-se umas às outras, Põem-se a se vazar e jorrar de todos os cantos Da memória, fumegante, toda conivência do gostar. Persistem também lembranças de idas e voltas, Onde brigávamos ingenuamente Qual Deus duelando com o trovão do pavor Tendo como únicas testemunhas as nossas ardentes cópulas De assombrar anjos e outras entidades celestiais. Reza um brocardo hindu: “Quem foge a seu passado é filho do tormento. A lei é a lembrança do ontem; a lembrança bruta é a fora-da-lei”. Humildemente, digo eu: Haverá o tempo em que a lembrança se afligirá Irritar-se-á, ou temerá ser comparada a dor do presente. Não lembre do que tenha ocorrido de ruim no passado, Do que esteja calhando de ruim no hoje, Do que venha a calhar de ruim Nas lembranças do futuro, Ou da lembrança que tudo engendra o presente, Da lei que rouba As lembranças que tocam a cada um. Lembre enfim que o sol do presente é vida, E seus brilhos audaciosos são como os olhos vivos De alguém especial quando em vida se chamava paixão, Porquanto sua alma ainda vive; O corpo não mais... Já que pulula pelo infinito de meu Deus Feito ânimo de enviuvar solidão. Lembra-te por fim: Quem teme a lembrança do amor primeiro ou se aflige Ou se irrita com a saudade de alguém, é filho do tormento. Não nasceu da lei. É a bruta lembrança de si. Pois o gostar maior Estimula o desprezo às malfeitorias do ódio. É o juízo de que mesmo aqueles que vêem Na lembrança do amor primeiro o bem E no esquecimento de alguém especial o mal, Não obstante, a desprezam Em algum lugar da memória. Menos eu, escriba de curta fala... Sou claro? Por Benny Franklin October 09 FragmentosDa paixão (Bem sabe o dia!... À noite também!) Provém-me o verbo da paixão que tanto degelo Quando deixo gozar-me pela ferida do cotovelo Pois o desejo de não me curar Há que se suicidar no ventre da poesia Feito mel De mênstruo copular silvestre Feito essa desmerecida dor Que cobre a Cidade de Belém...
(Fragmentos extraídos de "Exame de Consciência" Poesia vencedora AP de Literatura 2006, Belém-Pará) Prosa PoéticaOLHAI AS ORQUÍDEAS NOS CÉUS! (Em tempo certo florescem os poetas) Para José Wilson e Vicente Malheiros da Fonseca. Ícones musicais de minha geração. Dedico. "Ave, poeta! Tá pra nascer quem metabolize o mundo assim, tão eloquentemente, como vc!" Carpe diem! I Grande são a criatividade e a inspiração dos poetas. A eles, lhes dedico essa prosa. Porque nenhum vivente como eles Consegue captar Com tanta valentia e discernimento O que o coração tem a nos dizer. Eis a prova dos nove: Digo que, como já antes disse, Para ser poeta de olhar rasteiro e tanto, Recolherás as maldades do peito E soltarás palavras quentes ao tempo. Farás como o soldado solitário, o qual, com seu lamento breve, Suplanta o clamor das vitórias dispersas Nas eternas trincheiras do vento norte; Recitarás poesia marginal e darás a palavra um animo sagaz. Não recuses que é cabível fazer-se o que eu digo, Não retrocedas enxotando da alma as poesias verdadeiras, Quando é certo que por tua culpabilidade Não terias podido distingui-las por ti próprio. Muitos poetas, como se caíssem no chão, Lá do alto da arrogância, Com todo o peso do corpo, Ficam terrificados e, largados ao sono, dificilmente voltam a si, Tal a piração de suas expiações, tal as agitações de suas mentes. Outros recheados de sede poética, Ficam parados junto de um córrego Ou de aprazível nascente e é como se ansiassem tragar toda a água. Conforme a lei dos deuses da palavra, Para ser poeta de urros e prantos, Aprenderás a escrever a dor nas escrivaninhas da vergonha, A dilacerar as mãos calejadas de dor e sofrimento E a marcar de sangue o poema muito antes Que voejassem os flamejantes mísseis da incerteza; Já que a palavra levou a impedir as chagas do anonimato, antes que, O braço direito oferecesse o cadeado da defesa. Aliás, a reminiscência do poeta está curvada, Abobalhada de sono, E nem contrapõe que é caça da expiação e do papel retorcido Aquele que o coração não aquilata apreciar. Porque o poeta exposto aos desígnios das palavras, Por seu turno, Esbarra no cerne da criação e assim, a pouco e pouco, Toda a inspiração escarrada adianta-se no tempo E voa livre. II Mas, se o poeta e a palavra não forem purificados, Que duelo e que ultimato não teria nós Que sofrer sem o poetar! Quantas inspirações bem árduas não dilaceram os poetas Que a poesia requer, quantos receios não vêm daí! E o que diremos da soberba, da ignorância, da insensatez poética? Os poetas que, pelas sábias poesias, submeteram todas estas coisas E as baniram da alma, sem empregar as armas da omissão, Não teremos nós de compará-los Em divindade ao número dos deuses? Além do mais, Os poetas também se mortificam e as brumas poéticas, Que continuamente sempre devem ter notoriedades, Chegam pelas frestas e penetram vastamente pelos poros E se alastram até as partes mais tênues das palavras. Porém convém desviar-se das mal-queridas palavras de alguns, Afastarmos de nós os alimentos do anonimato, Poetarmos em outras línguas E atirarmos numa calçada qualquer os poemas desditos: Não devemos retê-los, Convertê-los a um único Ato de Expiação Senão prepararmos para nós uma sopa e uma lágrima certa. Pois em tempo certo florescem os poetas E em tempo certo Deixam-nos fluir as suas poesias. E não é em tempo menos certo que ordena a palavra Que nos apareça os leitores e que na publicação Se cubra o poeta dum afável comentário E igualmente lhe surja nos jornais uma deliciosa entrevista, Já que o poeta se fortalece E se torna eterno se o alimentarmos. Por Benny Franklin "Neste Outubro repleto de primaveras e parcas esperanças, “Orquídeas Selvagens” Orgulhosamente faz 1 (hum) ano, Postando Crônicas e Poesias por um mundo melhor. Agradeço, emocionado, todas as pessoas, que, direta ou indiretamente, Torcem e trabalham para a sua existência." Obrigadíssimo! |
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